sexta-feira, 1 de julho de 2016

Areia


São quase 21h... Escuto uma criança aos prantos na rua.

Vou para a janela. A mãe puxa um menino de cerca de 2 ou 3 anos pela mão. Aos prantos, ele implora pelo colo materno e a sua voz mistura manha e claro cansaço. Olho para a mãe, vejo que o pegou há pouco; carrega a mochila pesada da escola e a própria bolsa. Está cansada também.

Ela atravessa a rua, puxando-o. Ele, no meio das lágrimas, tenta convencê-la gritando: "- Mãe, por favor, quero colo... Por favor!!"

Suspiro triste. Eu entendo a mãe e entendo a criança.

Penso, inevitavelmente, no tempo como uma ampulheta de areia que corre depressa.

Se ela pudesse me escutar, eu lhe diria: - Em breve ele não caberá mais no seu colo... Mas, ainda cabe. Em breve ele não irá pedir pelos seus braços... Mas ainda pede, clama por eles. Pegue-o no colo, mãe. Pegue antes que os grãos não caiam mais.

Peço que o vento leve meu conselho silencioso e fecho as cortinas. Eu sei apenas sobre o que eu vivi, sinto e penso... E eu sempre vou querer o colo da minha mãe.

Verdade tardia.



(Flavia Alves)



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Pintura: www.przyklady-galerii.com






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