terça-feira, 12 de julho de 2016

Cordas de violão

Eu estava sentada sob o sol morno perto de meu mestre. Um vento suave balançava sua túnica clara e seus cabelos e barba brancos.

- Veja - dizia ele com suavidade, mostrando-me o violão - duas das cordas estão arrebentadas. E essas outras estão desgastadas. Você percebe?

O violão parecia machucado. Apesar da madeira, da estrutura, estar intacta, ele estava arranhado e opaco. Um das tarrachas de madrepérola estava faltando. Um arranhão mais profundo mostrava que ele estava maltratado. Segurei o precioso violão e senti grande tristeza.

- Você compreende que não depende apenas de você consertar o violão? Esse não é o seu ofício... Você só poderá voltar a tocá-lo quando o artesão lhe trouxer cordas novas e uma tarracha.

Eu não podia fazer nada além de esperar. Olhei para os olhos de meu mestre, que estava sorrindo, e prosseguiu com a lição.

- O aspecto do violão em si, não impede de serem tocadas lindas melodias, mas sem as cordas e sem a afinação, será impossível - ele fez uma pausa, e tirou o violão de minhas mãos - o que você pode fazer, além de esperar?

Mirei o horizonte. O vento suavizava o sol de inverno e tornava o dia agradável.

- Posso cantar? - arrisquei, como arriscaria uma criança.


- Sim. Você deve! Assim, quando chegarem as partes que faltam do violão, sua voz estará límpida como a de um pássaro. Serene seu coração, cante com a sua alma e espere o tempo para as outras músicas.


(Flavia Alves)





sexta-feira, 1 de julho de 2016

Areia


São quase 21h... Escuto uma criança aos prantos na rua.

Vou para a janela. A mãe puxa um menino de cerca de 2 ou 3 anos pela mão. Aos prantos, ele implora pelo colo materno e a sua voz mistura manha e claro cansaço. Olho para a mãe, vejo que o pegou há pouco; carrega a mochila pesada da escola e a própria bolsa. Está cansada também.

Ela atravessa a rua, puxando-o. Ele, no meio das lágrimas, tenta convencê-la gritando: "- Mãe, por favor, quero colo... Por favor!!"

Suspiro triste. Eu entendo a mãe e entendo a criança.

Penso, inevitavelmente, no tempo como uma ampulheta de areia que corre depressa.

Se ela pudesse me escutar, eu lhe diria: - Em breve ele não caberá mais no seu colo... Mas, ainda cabe. Em breve ele não irá pedir pelos seus braços... Mas ainda pede, clama por eles. Pegue-o no colo, mãe. Pegue antes que os grãos não caiam mais.

Peço que o vento leve meu conselho silencioso e fecho as cortinas. Eu sei apenas sobre o que eu vivi, sinto e penso... E eu sempre vou querer o colo da minha mãe.

Verdade tardia.



(Flavia Alves)



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Pintura: www.przyklady-galerii.com