domingo, 15 de maio de 2016

Luz



As circunstâncias que cercam esse diálogo não são relevantes. Guardarei todos os detalhes apenas para o meu coração... Fica aqui um trecho de diálogo que quero compartilhar com vocês.

--

Peguei uma mala cinza e velha, que parecia quebrada e esquecida naquelas ruínas. Desta vez eu sabia exatamente onde eu estava e segurava na outra mão o pequeno macacão rosa e branco de minha filha.

Decidida, eu me abaixei e comecei a guardar o que conseguia alcançar com o intuito de guardar e preservar aquelas memórias em formas de roupas velhas e objetos quebrados.

Era quase inútil. A poeira do lugar me fazia tossir e espirrar.

Olhei adiante e um raio de sol entrava pelo telhado quebrado; e peneirado pelos cacos de telha, fazia com que aquela figura diante de mim parecesse mais um anjo.

Era minha mãe.

Larguei tudo aquilo e corri para ela como uma criança assustada e ela se sentou comigo no que parecia ser o tapete branco de barbantes grossos da minha infância.

- Mãe... - segurei sua mão com força, temia que fosse apenas um sonho - mãe! Que bom que você está aqui, mãe. Mãe - comecei a dizer apressada - eu pensei que você estivesse morta, mãe... Senti sua falta por toda uma vida, que não era essa. Mãe...

Ela me olhava com aqueles olhos claros que irradiavam luz e amor.

- Flavia... - disse segurando minha mão e beijando - sempre estivemos juntas, minha filha.

- Mas assim é diferente - disse a menina de dentro de mim, decidida - ter você assim é muito importante. Saber que compartilhamos momentos, abraços... Saber que você segurou a Nanda e conhece o Leandro... Mãe, mãe... - eu chorava sem controle.

- Por que você está segurando isso? - e notei seu olhar doce pousar em minha outra mão. Era a roupinha de bebê da minha filha e uma caixinha de metal da minha avó Yedda.

- Ah, mãe... Você sabe... São memórias.

- E onde estão as memórias, filha?

Parei e suspirei. Os objetos eram apenas o pretexto, um foco... Como varinhas para bruxos. Estaria ela me testando, me ensinando o que eu já sabia?

- Dentro de mim - respondi olhando em seus olhos - elas estão em mim.

- Então, largue isso de uma vez - disse suavemente retirando a roupa de bebê e a caixa de minha mão. Não resisti e larguei. Nossas mãos se entrelaçaram e ela repetiu, como se quisesse que eu guardasse aquilo - As memórias estão em você, no amor, nos aprendizados... Nunca em objetos materiais, Flavinha.

A abracei forte, sentindo seu calor e seu cheiro. A mulher que eu abraçava parecia mais jovem do que eu e ela irradiava luz. Ela era pura luz.


E eu soube que era um sonho.





Nenhum comentário:

Postar um comentário