quinta-feira, 12 de maio de 2016

Escombros


Caminhava devagar e observei a casa em escombros. Nada nela era familiar para mim, nem a posição das escadas, nem as paredes caídas, nem os restos de memórias de vidas que ali se espalhavam.

Era noite.

Movida por curiosidade entrei no lugar. Apesar do cenário óbvio de filme de terror eu não sentia medo e respirava de forma absolutamente consciente.

Notei que alguns trechos do chão levavam à abismos imensos, cujo fundo parecia um misto de interior de vulcão e inferno de Dante... E fiquei pensando se aquilo seria um portal.

Foi quando notei uma presença. Não o reconheci à princípio, porque parecia uma criança encolhida em um canto daquelas ruínas. Mas à medida que eu me aproximei pude perceber três coisas: a primeira era que havia pessoas fundidas às paredes, como se um vampiro tzimisce estivesse ali; a segunda era que o menino que se encolhia contra os escombros estava se fundindo à eles... E a terceira, para meu completo estarrecimento, era o fato de eu reconhecer nele a pessoa que eu mais odeio neste universo.

Parei, sentindo o coração descompassar. Pensei: é agora, vou sentir medo... Mas, para minha surpresa eu não senti, e tive a certeza que ele não me reconheceu.

- Moça... - disse o menino com voz de choro - o que vou fazer agora?

Olhei para as mãos dele. Havia livros rasgados e miniaturas de chumbo quebradas por todos os lados. Dados coloridos de RPG estilhaçados, roupas rasgadas, plantas mortas. Aquele lugar parecia prestes à ser engolido pela outra dimensão cataclísmica.

- Talvez se você sair de perto das ruínas possa pensar melhor - disse eu procurando em meu coração o que eu estava sentindo.

Deveria ser ódio, pensou o meu ego e a mulher-mãe ferida por aquele ser diante de mim. Deveria ser mágoa ou rancor, pensou a mente lógica da mulher leal e fiel, traída de todas as formas, dentro de mim. A resposta que emergiu pareceu um bálsamo em minha própria alma: eu estava sentindo compaixão... Sentia pena.

Acordei.


Tive a certeza que estou conseguindo caminhar na direção do perdão... e assim, de minha própria libertação.




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