domingo, 11 de janeiro de 2015

O Quarto

Estávamos cercados. Não pensei que ficaríamos em tal situação, por ter confiado que conseguiríamos defender a cidade... E, na verdade, tínhamos conseguido, porque faltavam fugir ou morrer apenas os três líderes. Entre eles estava o mais perigoso de todos. Eu confiava na minha mira, porém, sempre preferia que estes seres vis fugissem, como cobras afugentadas pelo fogo. Teriam assim a chance de mudar seus destinos e deixar a crueldade de lado.

Era tudo ou nada. Estávamos ali há horas e todos estavam exaustos.

- Estou lhes oferecendo uma chance de rendição! - gritei o mais alto que pude. Minhas respostas foram ofensas vazias, de baixo calão, que não merecem ser descritas.

Chequei a munição de minha arma, completando a última bala que faltava e então, sem avisar aos meus amigos, me ergui e disparei três tiros precisos nas cabeças dos assassinos. Estava certa de ter acertado todos eles, mas um permaneceu de pé, atirando a esmo até acabar a munição de suas duas pistolas.

Sem hesitar, corri em sua direção e dei mais dois tiros em sua cabeça. Ele caiu se debatendo e comecei a achar tudo muito estranho. Ele parecia estar derretendo, como se os ossos não tivessem firmeza alguma. Fiquei me questionando o que poderia estar acontecendo, quando, como em um livro de terror, o moribundo tentou agarrar meu braço. Virei minha arma ao contrário e golpeei na cabeça daquela coisa com toda a força que pude... E então, ele começou a transformar-se em areia diante de meus olhos incrédulos. Sua roupa suja e o colete amarelo encardido não escondiam mais a verdade de quem presenciava a cena: aquilo não era humano! Os seus ossos eram estranhos, e ele possuía garras e uma cauda.

Levantei, sentindo uma tontura crescente, e fui até meu grupo, que me olhava estarrecido. Diferente das demais mulheres, eu sempre optava por usar calças e mantinha meus longos cabelos presos em tranças. Isso me proporcionava agilidade em qualquer tipo de situação, mas não me tornava uma mulher respeitável aos olhos alheios.

*  *  *

O casarão que usávamos como abrigo era antigo, grande e luxuoso. Tinha sido abandonado há muito tempo, mas os moradores da vila que salvamos fizeram questão de nos presentear com uma reforma. Eu criara o hábito, naquelas duas semanas, de nadar na piscina do casarão e estava sentada com os pés na água quando Bruno chegou.

- Terminaram a reforma e agora a casa é oficialmente nossa. O prefeito fez questão de agendar uma entrega oficial da chave na praça, que fica na frente da igreja - ele sorriu para mim e eu desviei os olhos dos olhos dele - É hora de escolhermos os quartos. Têm dois no térreo e quatro no segundo andar. Todos foram unânimes que você irá escolher primeiro.

Tentei sorrir para aquele que era meu grande amor. Ao menos ele tivera a decência de conversar comigo e de nos separarmos antes de estar com Sarah, a médica de nosso grupo e também minha amiga. Ou ao menos costumava ser. Eu havia mudado muito desde então e me fechara para muitas emoções. Não tinha acontecido nenhuma traição... Ainda assim, cada vez que eu via os dois juntos, precisava me afastar para não me afogar na dor. Uma parte de mim estava morta.

- Posso acompanhá-la? - perguntou ele, caminhando ao meu lado sem aguardar uma resposta. Fechei meu roupão atoalhado e apressei o passo na direção das escadas. Já conhecia os quartos de baixo e preferia ficar longe do quarto de Bruno e Sarah.

Todos os aposentos tinham sido pintados e tinham recebido uma decoração simples e bela. A restauração levara pouco tempo, mas fora esmerada.Cada quarto passou a ter uma cor predominante, combinando com os vitrais coloridos das janelas e seus papéis de parede antigos, que não tinham sido trocados, mas estavam limpos e as marcas do tempo eram imperceptíveis.

Eu soube que escolheria o quarto azul antes mesmo de terminar de vê-lo. Talvez fosse o vitral de árvore, talvez a claridade, talvez o banheiro verde-água com sua banheira branca de louça ou ainda o motivo poderia ser a colcha de retalhos em todos os tons de azul, verde e branco sobre a cama de viúvo.

- Ficarei com este - disse baixinho, sem olhar para Bruno, fixando minha atenção na árvore de vidros da janela. Ele riu baixinho.

- Eu sei. Conheço você... Tem um presente meu, no armário.

Olhei intrigada para aquele que tinha sido meu melhor amigo e era meu ex-marido e fui até o armário. Ao abri-lo, saiu sonolento e logo saltitante, um filhote de gato branco, com um olho azul e outro verde... Minhas cores preferidas.













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