terça-feira, 15 de abril de 2014

Reencontro


     Caminhava pela floresta distraída pelos movimentos rotineiros de buscar frutas silvestres e levar para a árvore onde moro. A luz já estava crepuscular, suave, e os últimos raios do sol penetravam nas densas folhagens das árvores milenares. Cipós floridos com cores das mais diversas mostravam o auge da estação mais alegre do ano; mas, ainda assim, o verde e verdes predominavam. Parei perto do riacho cantante e ajoelhei, segurando minha roupa rústica de algodão. Olhei meu reflexo nas águas quase calmas e foquei em meus olhos cansados. O tremor natural das correntezas fazia com que minha imagem parecesse onírica.

     Um vento súbito, vindo do sudoeste me deixou alerta. Fiquei em pé por reflexo, aguardando com minha mão sobre a adaga de obsidiana. Uma voz suave estava sendo trazida com o vento... E fui invadida por um sentimento de nostalgia e saudade. Senti o cheiro da alma amada... Com o coração batendo mais forte, peguei a bolsa com as frutas recolhidas naquele dia e comecei a correr na direção do meu ninho quase vazio.

     Ao chegar lá, entrei. Quase não dei atenção aos pequenos seres que dividem meu lar comigo. As pequeninas Chama, Pedra, Pluma e Gota. Não que sejam de fato criaturas presas aos elementos... Não são. Mas achei conveniente chamá-las assim, pois pareciam simbolizá-los. Notei que mal eu entrei na árvore, começou a chover... Uma chuva gentil, suave, cujo toque nas folhas quase produzia uma música. Fui até a abertura oval e percebi o brilho perolado que vinha de uma das duas luas, a menor delas, nas múltiplas gotas e gotículas que se acumulavam nos muitos verdes e cores da floresta. Anoitecia.

      Meu coração estava agitado. A verdade é que eu esperava por aquele sinal há mais de um ciclo solar... Isso significava meses, eternos, de espera. Respirei mais devagar, tentando controlar minhas emoções com o pequeno ritual do ar interior. A expectativa do reencontro fazia meu coração bater como um tambor ritmado, em um pré-ritual de entrega.

     Como seria isso? Nossos olhos iriam se entrelaçar? Nossas vozes seriam livres? O abraço seria o abraço de almas? Como seria sentir seu cheiro, e não apenas o vento da memória? Como seria sentir esta alma tão perto? Algum dia nos afastamos de fato? A verdade é que ao nos separarmos, quando a pequenina, já não tão pequenina, decidiu ir para terras distantes tentar a sorte; uma parte de mim foi com ela... Mesmo que ela não tenha percebido. Meu amor a acompanhou em cada passo de seus novos caminhos e sua grande jornada. E sei que ela deixou uma parte de si comigo... E foquei meu olhar no bracelete de pedras azuis em meu pulso esquerdo. Mesmo quando eu não o usei, com receio de quebrá-lo, ele estava ali, entranhado em mim, pois quem o porta é meu coração.

     Uma lágrima desceu suave, ao recordar do pesadelo que eu tivera no ano anterior... Quando sonhei que a vi em uma floresta escura e desconhecida, falando com uma voz sombria, que não pertencia à ela... Sem sustentar meu olhar e sem sentir reciprocidade no meu afeto. Lembro de minha sensação ao acordar e dos dias e dias que fiquei me convencendo que tinha sido apenas um pesadelo... Que ela, a alma amada, jamais permitiria que vozes alheias falassem por ela. Minha pequena era forte, guerreira. Era corajosa. Nunca falariam através dela... Nunca.

     Fui até a mesa e peguei uma pequena fruta lilás. Ela brilhava como uma pedra preciosa. Pedra, Concha, Pluma e Chama me rodeavam curiosas e lhes mostrei a pedra no meio das frutas. Era um sinal. E meu coração estava afinal pleno de esperança... O reencontro finalmente seria real.








Nenhum comentário:

Postar um comentário