quarta-feira, 26 de março de 2014

Contemplação


Sentada sobre uma pedra suavizada pelo tempo, eu contemplava o horizonte. Respirava devagar, consciente dos movimentos e de meu corpo. Cenas de tudo o que eu vivi passeavam, quase bailando, em minha mente... Memórias.

Notei que tentar fazer conexões entre elas era tolice. Era melhor permitir que elas emergissem, caóticas, aleatórias e dispersas: Ladeira de paralelepípedos... Friburgo, Santa Tereza, vovô, Mascagni, vovó, lírios, minha tia, pinturas, primos, minha infância, brincar de faz-de-conta, ciranda; chuva... frio, risadas, lágrimas; mar... lua nascendo, mergulho em mim mesma, acolhimento; olhos verdes... mãe... colo, amor; livros... meu pai, contos fantásticos, tarô, conversas, infinitos assuntos; lilás... meu bebê, minha pequena florzinha lavanda, tão ansiada e amada, tanta saudade; Balu... Félis... Peter... tantos amados, tão brilhantes pequenas estrelas no firmamento do céu; verde-água... pipas que não foram jamais empinadas; meus irmãos... brincadeiras, jambos maduros e cheirosos, pique, diques de pedras e águas, danças, filmes, almoços, orações; música, dança... tantas, tantas; tantas vidas, tantos caminhos entrelaçados, tantos recortes, fragmentos, amor, possibilidades de amor, dor, encontros e separações... meus amigos... meus seres amados, alicerce, alento, vento morno no inverno e brisa fresca no escaldante verão.

Respiro.

Tudo o que vivi, me torna o que sou. Mas além do perdão, é preciso ter em mente que não podemos viver nas memórias... E nem delas. A vida não está ali. Em nenhum aspecto. E não podemos viver nas projeções e na ânsia legítima de vivermos nossos sonhos. A vida também não está no futuro.

O vento embala meus cabelos, que hoje (apenas hoje) estão na cor do cobre. Enxugo as lágrimas por tanto amor perdido (e não-vivido) nos caminhos turvos de minha existência e da própria humanidade.

Sei porque estou aqui. Estou aqui para aprender. Para me lapidar. Para crescer... Para me superar. Superar meus limites... Transcender.

Preciso focar na impermanência.

Estou aqui para amar. Para lembrar o que sou... E eu sou amor.





--

Imagem: deviantART, de spiderandthefly

Nenhum comentário:

Postar um comentário