terça-feira, 18 de março de 2014

Cabelos azuis


     A casa antiga estava gradeada desta vez... Havia grades brancas em todas as janelas e portas. Eu caminhava lentamente pelos corredores e estava descalça. O chão de tábua corrida rangia levemente e um vento que entrava pelas grades anunciava a chuva.
     Foi quando encontrei a criança de cabelos azuis, em um canto, escondida. Pequena, suja de poeira e repleta de ferimentos superficiais; não devia ter mais do que três anos de idade. Segurei-a em meus braços e a levei com pressa para o banheiro mais próximo. Lavei seus cabelos de céu e seu corpo aparentemente frágil. Ela ficou quieta, me observando com olhos grandes e tristes. A sequei com uma toalha macia, e observei que não estava mais ferida... Tinha sono. Coloquei-a em uma cama, ajeitando as cobertas e pensei que seria bom conseguir frutas para ela.
     Peguei uma bolsa branca, toda colorida por dentro, como se a luz se quebrasse em um prisma de cores; e fui na direção da entrada do casarão.
     Uma mulher velha e magra estava diante da porta. Seus cabelos eram longos e cacheados nas pontas... As pontas pareciam azuladas, em um tom desbotado, como um horizonte de céu, em um final de dia. Ela ria e tinha chaves em suas mãos. Trancara a casa inteira!
     Tentei argumentar com ela, em vão. Ela virou as costas e sumiu em um dos muitos corredores.
     O céu estava escuro e parecia que a chuva tinha se transformado em uma tempestade... Trovões e raios me angustiaram e comecei a procurar por uma chave, para abrir a porta, ou qualquer janela que fosse. Nas gavetas, havia medicamentos de todos os tipos. Muitos. Tantos... Por quê?
     No auge do desespero, pensei em abrir as grades com minhas mãos.

     Acordei.

     Sou a criança, a observadora e a velha. Tenho os cabelos azuis.


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Imagem: deviantART




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