domingo, 30 de março de 2014

Outono


Sonhos de cores, chuvas, possibilidades
Vidas, veredas, trilhas e caminhos
Observo as estrelas, sou una contigo, destino...
Onde estás tu? 
Que és parte de mim mesma
Quando nossos olhares estarão juntos, enfim?
Almejo as trocas, os toques, os beijos
Anseio pelas conversas e por nossos devaneios
Quero a ti, meu par, para juntos
...dançar!
...cozinhar, rir, dialogar, entregar
...ser, viver, estar, amar
Pare com esta demora, parte de minh'alma!
Basta de distância! 
Quero-te agora!
Sem esta saudade do que ainda não vivemos
Sem os medos de outrora, de outono
Sejamos. Amemos. Estejamos.
Quero ser o teu calor neste inverno que chegará
Poderemos fazer tudo o que quisermos
(vamos ver um filme juntos?)
O infinito é nosso!
Venha logo!!
(vamos caminhar de mãos dadas?)
O tempo será, afinal, ilusão...
(consegues ver?)
Alívio... Alento.
Basta deste tormento!
Quero o fim desta solidão


(Flavia Alves)



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Imagem: deviantART


Trovado



Havia uma agitação no ar. Os jogos iriam começar. O espaço era ilimitado e no que poderia ser um horizonte, havia um nascer de galáxias, estrelas e vastos vazios celestes. Eram universos.

A primeira prova, era, como de praxe, controlar um corpo. Um frágil corpo... Ser o corpo. Desta vez eu tinha escolhido um cavalo. Belo, livre, indomado. Eu teria que descer pela espiral de escadas. Saltar, como sempre, o abismo infinito e tocar o mármore antigo. Os limites físicos são sempre complicados e há que se ter cautela com o nível de energia direcionado.

Era a minha vez. Eu era a amplidão e era o cavalo claro que saltava em arco. Um salto quase perfeito... Um pouco angustiante sentir-me limitada. Mas sentir o pulsar do coração, a corrida, o ar; fazia a experiência ser única. Sempre é.

Um desequilíbrio ao chegar nas escadarias de mármores fez com que eu fosse obrigada a estar mais no corpo criado do que na infinitude. Desci. E continuei descendo, com maior graça e desenvoltura... Era uma questão de hábito efêmero. Mas é hábito.

Ao chegar ao final das escadas espirais, ali estava ela. A Terra.

Sem pensar, assumi uma forma humana. Estava nua. Havia cartas de tarô espalhadas aos meus pés... Cartas curiosas, pois marcavam arcanos de ambos os lados. Peguei uma... Fixei o olhar na imagem. Li o que era um pedaço de frase, virei e terminei de ler.

Acordei.

"Trovado é tão imprevisível porque é muito temperável."




quarta-feira, 26 de março de 2014

Contemplação


Sentada sobre uma pedra suavizada pelo tempo, eu contemplava o horizonte. Respirava devagar, consciente dos movimentos e de meu corpo. Cenas de tudo o que eu vivi passeavam, quase bailando, em minha mente... Memórias.

Notei que tentar fazer conexões entre elas era tolice. Era melhor permitir que elas emergissem, caóticas, aleatórias e dispersas: Ladeira de paralelepípedos... Friburgo, Santa Tereza, vovô, Mascagni, vovó, lírios, minha tia, pinturas, primos, minha infância, brincar de faz-de-conta, ciranda; chuva... frio, risadas, lágrimas; mar... lua nascendo, mergulho em mim mesma, acolhimento; olhos verdes... mãe... colo, amor; livros... meu pai, contos fantásticos, tarô, conversas, infinitos assuntos; lilás... meu bebê, minha pequena florzinha lavanda, tão ansiada e amada, tanta saudade; Balu... Félis... Peter... tantos amados, tão brilhantes pequenas estrelas no firmamento do céu; verde-água... pipas que não foram jamais empinadas; meus irmãos... brincadeiras, jambos maduros e cheirosos, pique, diques de pedras e águas, danças, filmes, almoços, orações; música, dança... tantas, tantas; tantas vidas, tantos caminhos entrelaçados, tantos recortes, fragmentos, amor, possibilidades de amor, dor, encontros e separações... meus amigos... meus seres amados, alicerce, alento, vento morno no inverno e brisa fresca no escaldante verão.

Respiro.

Tudo o que vivi, me torna o que sou. Mas além do perdão, é preciso ter em mente que não podemos viver nas memórias... E nem delas. A vida não está ali. Em nenhum aspecto. E não podemos viver nas projeções e na ânsia legítima de vivermos nossos sonhos. A vida também não está no futuro.

O vento embala meus cabelos, que hoje (apenas hoje) estão na cor do cobre. Enxugo as lágrimas por tanto amor perdido (e não-vivido) nos caminhos turvos de minha existência e da própria humanidade.

Sei porque estou aqui. Estou aqui para aprender. Para me lapidar. Para crescer... Para me superar. Superar meus limites... Transcender.

Preciso focar na impermanência.

Estou aqui para amar. Para lembrar o que sou... E eu sou amor.





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Imagem: deviantART, de spiderandthefly

terça-feira, 25 de março de 2014

Brumas e Sombras



Eu caminhava ao lado do homem velho. Calmamente ele me explicava:
- As brumas são as incertezas humanas.
Ao longe, vi um amigo cercado de brumas e sombras. Preocupada com ele, questionei.
- O que são as sombras?
- Os medos.
- Eu não tenho medos? - disse eu olhando ao meu redor. Não via sombras.
- Dificilmente alguém reconhece os próprios temores.

Acordei. Desde ontem tenho refletido sobre isso. Medos e incertezas turvam nosso olhar... E pode ser que, assim, acabemos perdendo oportunidades de sermos plenos e mais inteiros.


Talvez.

Realizar


Viver requer confiança
...em nós mesmos
...nossos sonhos
...nossa força

Amar requer coragem
...de confiar
...de viver
...de se entregar

Sonhar exige força
...para lutar
...realizar
...e seus sonhos, amar


(Flavia Alves)



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Imagem: deviantART

segunda-feira, 24 de março de 2014

Estrela Lilás


As areias do tempo prosseguem
...em seu eterno esvair
Os dias seguem incessantes
Sol e Lua são parte do existir

Sempre sinto a tua presença
Pequena menina em meu coração
A saudade ora amarga, ora doce
...faz transbordar a emoção

E o tempo me mostra afinal
...que a separação é uma ilusão
Não é real, é bruma
Temos em nós, amor e devoção 

Juntas, estaremos sempre
Neste caminhar sob o sol
Segue comigo a esperança semente
De nos encontrarmos em algum arrebol

Guardo a mais plena alegria
De ver-te tão forte e guerreira!
E abraço-te nesta poesia
Que é tão verdadeira


Com amor, de sua mãe...


(Flavia Alves)



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Imagem: deviantART




domingo, 23 de março de 2014

Cachos de Ébano


A névoa verde, de flores
...te envolvia, diáfana
O teu caminhar, em cores
... mostrava-me que eu sonhava acordada

Vi-te feliz, em harmonia
Pele e cabelos ao vento
andar leve...
Sem nenhum tormento

Confusa eu fiquei
Alegria de ver-te plena 

Oro para os céus e para a Terra
Que eu tenha visto o futuro teu
E este é um desejo meu

Quero ver teus cachos de ébano
A emoldurar teu rosto
Olhar posto no mar
Sem pressa, a sorrir

Leve, inteira
Transbordando luz e o amar


(Flavia Alves)

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Imagem: deviantART



terça-feira, 18 de março de 2014

Renascer


Quanto tempo até libertar a minha alma do amor que latejava por você?
Quanto tempo até emergir na superfície de mim mesma, e respirar outra vez?
Efêmero, o tempo confunde os sentidos, arrasta os segundos...
Torna os dias quase eternos
E tudo vai ficando para trás, quase uma outra vida...
Memórias antigas que se mesclam dolorosamente
Escolhas que não foram minhas, lapidam meu espírito e percepção
Novos caminhos surgem, inesperados, carregando novos ares e emoções
E a vida segue sem você, que era parte das águas em meu viver...

Tenho a garganta seca, mas adapto-me, parto-me

Sou outra


(Flavia Alves)


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Imagem: Sea Spell, deviantART



Cabelos azuis


     A casa antiga estava gradeada desta vez... Havia grades brancas em todas as janelas e portas. Eu caminhava lentamente pelos corredores e estava descalça. O chão de tábua corrida rangia levemente e um vento que entrava pelas grades anunciava a chuva.
     Foi quando encontrei a criança de cabelos azuis, em um canto, escondida. Pequena, suja de poeira e repleta de ferimentos superficiais; não devia ter mais do que três anos de idade. Segurei-a em meus braços e a levei com pressa para o banheiro mais próximo. Lavei seus cabelos de céu e seu corpo aparentemente frágil. Ela ficou quieta, me observando com olhos grandes e tristes. A sequei com uma toalha macia, e observei que não estava mais ferida... Tinha sono. Coloquei-a em uma cama, ajeitando as cobertas e pensei que seria bom conseguir frutas para ela.
     Peguei uma bolsa branca, toda colorida por dentro, como se a luz se quebrasse em um prisma de cores; e fui na direção da entrada do casarão.
     Uma mulher velha e magra estava diante da porta. Seus cabelos eram longos e cacheados nas pontas... As pontas pareciam azuladas, em um tom desbotado, como um horizonte de céu, em um final de dia. Ela ria e tinha chaves em suas mãos. Trancara a casa inteira!
     Tentei argumentar com ela, em vão. Ela virou as costas e sumiu em um dos muitos corredores.
     O céu estava escuro e parecia que a chuva tinha se transformado em uma tempestade... Trovões e raios me angustiaram e comecei a procurar por uma chave, para abrir a porta, ou qualquer janela que fosse. Nas gavetas, havia medicamentos de todos os tipos. Muitos. Tantos... Por quê?
     No auge do desespero, pensei em abrir as grades com minhas mãos.

     Acordei.

     Sou a criança, a observadora e a velha. Tenho os cabelos azuis.


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Imagem: deviantART




sexta-feira, 14 de março de 2014

Decisão


Um passo para trás... dois... três...
Afasto-me do abismo
O vento morno parece cessar
Fecho os olhos, controlo o respirar
Minha mente divaga, viaja
Foco na amizade e no carinho, reais
As memórias serão doces, intocadas
Mudamos, não seremos um par
Escolhas que nos afastam
Decisões que optamos por não tomar
Dores que escolhemos não sentir
...possibilidade de amor, a rarear
E o vento segue seu próprio destino
Seja feliz, querido e eterno menino
Eu sigo meus próprios caminhos
Sigo inteira por não ter caído
...não ter me entregado e nem partido
Felizes seremos
Sejamos



(Flavia Alves)


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quarta-feira, 12 de março de 2014

Eu te amava



"Eu 'rompi com o mundo
Queimei meus navios'
E você, o que fez?
Nada.
Ficou na sua posição confortável
De braços e pernas cruzados
Apenas se mexeu quando
Preferiu dar ouvidos ao povo
Se dobrar a uma sociedade hipócrita
E lavar as mãos, feito Pilatos
Melhor teria sido romper com você
Queimar todo o sentimento
Por maior que fosse"


(Referência à música 'Eu Te Amo', de Chico Buarque; poesia de Renata Braz)


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segunda-feira, 10 de março de 2014

Dani


Descrever emoções, racionalizar sobre os anos
Amor incondicional, perene, belo, imortal
Nutre a alma, enche os olhos, traz alegria
Invadem o pensamento, as memórias, sem licença pedir
Então, o coração, que nada racionaliza, passa a sentir
Luz crescente, estrela e farol, por aquela voz reconhecer
Anos e anos passados, a mesma... a mesma voz perceber.



(Flavia Alves)

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