sexta-feira, 4 de março de 2011

Três irmãs




As luzes do crepúsculo começavam a mesclar-se com a luminosidade trêmula das chamas das velas, que aos poucos, como sempre, eram acesas. O dia chegara ao fim e uma menina cuja idade poderia aproximar-se de nove ou dez primaveras corria pelo casarão da fazenda. Uma certa angústia apertava-lhe o peito e ela sabia exatamente o que sentia... Seu pai estava prestes à chegar e naquele instante a garota não tinha idéia de onde estariam suas duas irmãs.

Segurando um vestido longo que não chegava ao chão, ela passara por um corredor largo que tinha um chão de tábua corrida e escura. Perdera alguns minutos, talvez algumas horas, nas palavras e linhas escritas de um de seus livros favoritos e assim, acabara por perder a noção do tempo. Seu caminho cruzou com o de um dos escravos mais jovens que trabalhava acendendo as velas e os lampiões à óleo. Estava preocupada demais para conversar com seu amigo, então apenas fez um leve aceno com a cabeça.

Sua irmã do meio era muito travessa. Sorridente, alegre e repleta de energia, tinha como uma de suas brincadeiras favoritas o esconde-esconde, e tinha sido assim, provavelmente, que metera-se nos aposentos dos escravos pela primeira vez. A mais velha sempre dava um jeito do patriarca não ter conhecimento algum sobre as excursões que as três irmãs passaram a ter nos arredores do local. Sua irmã caçula, por sua vez, era a sua protegida... Pequenina e corajosa, servia de inspiração para as outras através de sua inocência.

A mais velha abriu a porta dupla do quarto que dividia com as irmãs e correu para a cama próxima da janela. Debruçando-se sobre a guarda que impedia a pequenina de cair, ao sonhar, sorriu ao ver a face alva de sua irmãzinha. Tocou-lhe de leve nos cachos dourados emolduravam o rosto amado e notou que ela estava sorrindo adormecida.

Ao sair apressada do aposento, quase esbarrou na escrava que era praticamente sua mãe, pois era ela quem criara as três meninas. Não conseguiu escutar a pergunta que lhe foi feita, e não respondeu, rindo sem jeito e quase perdendo o fôlego. Disparara na direção da cozinha! Precisava encontrar a irmã do meio e não tinha mais tempo para perguntas, para nada!

Ao chegar na entrada dos fundos do casarão ergueu os olhos e viu as primeiras estrelas do céu noturno. Uma vibração conhecida atraiu sua atenção e ela distinguiu os tambores ao longe... Talvez fosse dia de festa, talvez o jantar estivesse mais caprichado, talvez fosse apenas uma data importante para os homens e mulheres de pele escura como a noite.

Uma coisa era certa. Sua irmã, que amava dançar além de se esconder, estava com eles.



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