quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dor e lições

Eu sabia que chegaria o dia em que, em alguma disciplina, eu perderia o controle... Esperava estar preparada. Afinal, já assisti à documentários dolorosos, já li textos, já sei tantas coisas sobre o holocausto animal... Pensei que conseguiria evitar certas aulas, conversando antecipadamente com os professores, deixando clara a minha posição abolicionista.

Desde o começo da faculdade, vira e mexe, em alguma aula surge algum comentário que provoca reviravoltas no meu estômago. Especismo escancarado. Preconceito que atualmente, não apenas é aceito, como é incentivado.

Mas eu me segurava. Alguns colegas e alguns amigos, sabendo como me sinto, seguravam minha mão... Olhavam para mim, para checarem minha reação. Amizade.

Porém, na aula passada de microbiologia, cujo assunto era o vírus da gripe, eu cheguei à um limite até então inexplorado: O de perder o controle sobre as minhas emoções. A descrição sobre a produção da vacina não me incomodou tanto quanto os detalhes sórdidos dos esquartejamentos dos embriões quase-nascidos... Fui lançada em um furacão.

Começou com uma respiração irregular e tremedeiras. Tentei me controlar, claro. Tentei não escutar as informações... Olhei para o chão, para as paredes, para os meus colegas e amigos. Não deu. Foi mais forte que eu... Vieram as lágrimas.

Quando comecei a ficar tonta, levantei súbitamente e sem pensar sai andando na direção da porta. Neste momento não escutava mais nada... Nem o professor, nem as informações dantescas que ele repassava para a turma.

Eu estava chorando sem controle.

Sem mochila, sem celular, sem direção, saí sem enxergar para onde ia e andei até a escadaria do prédio do IB... Sentei, me encolhi de tanta vergonha da espécie humana... Chorei pelos embriões não-nascidos, pelos bezerros, pelos animais explorados diariamente... Aos bilhões.

Como a minha espécie é arrogante. Agimos como deuses... Como se possuíssemos a Terra e as almas de seus filhos, nossos irmãos. Agimos como se não existisse consequência alguma de nossos atos.

Me senti no olho do furacão... Não havia som algum, apenas o do meu coração desolado e dos soluços de meu pranto, não mais contido.

Foi quando me senti sendo abraçada.

Estranhei e levei alguns segundos para sair da minha bolha de silêncio. Alguém estava do meu lado e me abraçava. Eu não estava sozinha... E quando eu ergui os olhos e consegui focar visão vi que minha amiga tinha preocupação nos olhos e me banhava com sua luz. Compaixão... Amizade. Apoio quando eu menos esperava.



Quantas lições em um só dia de faculdade.






2 comentários:

  1. O especismo que hoje é incentivado, amanhã será entendido como tempo de vergonha para a humanidade, como já é considerado hoje o escravismo por exemplo. Enquanto isso, minha irmã, só os amigos mesmo e a esperança pra aguentar isso... Te amo!

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  2. Força, querida Flávia!
    Há de se cultivar a equanimidade dos sentimentos, se quisermos viver nesse planeta tão atrasado e trabalhar pela evolução de todos nós. É o grande desafio de sentir a dor do mundo e ainda assim manter-se sereno, na certeza de que tudo tem seu sentido de ser, e que o amor triunfará, mesmo que abrindo caminho por tortuosos vales de lágrimas.
    Abraço!
    Bruno Prudente

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