terça-feira, 8 de setembro de 2009

Subindo a montanha para esquecer a mesa


Neste momento, ao escrever estas palavras, escuto uma música que sempre faz minha alma silenciar... É a "Moonlight Sonata", do Beethoven. É uma música muito intensa e triste ao mesmo tempo. E ela traduz bem o que tenho sentido nos últimos dias... Tenho sentido uma necessidade quase palpável de silenciar um pouco o meu espírito. Como se, por alguma razão, eu precisasse entrar dentro de mim mesma e observar.

Ou, como diria Don Juan Matus, preciso subir a montanha e olhar para a minha mesa de longe.

Para quem não leu os livros de Carlos Castañeda, em um deles (Porta para o Infinito), Don Juan pede para seu discípulo carregar uma mesa de madeira nas costas enquanto eles atravessam um trecho do deserto (palco de muitas das narrativas dos livros). Naquele dia estava fazendo um sol muito forte e Castañeda sentia a cada passo o peso da mesa aumentar cada vez mais. Depois que eles chegaram na base de uma montanha, Don Juan disse que ele poderia deixar a mesa de lado... E pediu para Castañeda esvaziar os bolsos. O jovem antropólogo e aprendiz de feiticeiro obedeceu, cansado, suado, aborrecido e exausto. Tirou a carteira, os documentos, as chaves do carro e diversos pequenos objetos.

Então mestre e discípulo subiram a montanha sem pressa. O vento do deserto e a fonte que encontraram aplacaram o calor e o aborrecimento, à medida que os dois iam subindo. Carlos sentia-se grato por não precisar mais carregar a mesa de madeira nas costas e Don Juan, com sua agilidade, guiava seu aprendiz em silêncio.

Ao chegarem no alto, sentaram-se e miraram o horizonte. Viram os pássaros voando e a amplidão dos céus sobre eles... Sentiram o calor do sol e a força do vento... Carlos admirou-se com a visão e com a vista que tinham de todo o vale.

Foi quando Don Juan pediu para ele olhar para a mesa e para os objetos sobre ela. Castañeda esforçou-se, mas mal conseguia enxergar o móvel que tinha carregado por tantos quilômetros e que o aborrecera tanto. Era uma mesa muito pequena e sem importância alguma diante da paisagem e do mundo que se estendiam e entravam em seus olhos.

Muitas vezes agimos assim com nossos problemas. Carregamos uma mesa de madeira ou até metal, em nossas costas, sem a menor necessidade. Carregamos objetos desnecessários nos bolsos... Carregamos sentimentos ruins no coração. E isso retarda nossos passos, torna nossas jornadas mais lentas e os caminhos cansativos. Não temos a agilidade e a força necessárias para subir a montanha e olhar para o que importa.

Sei que, algumas vezes, somos "obrigados" a carregar mesas (empregos, locais para morarmos, etc). Mas devemos encarar isso como aprendizado e como opção, jamais devemos encarar como se nossas vidas dependessem da mesa ou dos muitos outros pesos que insistimos em carregar sem que ninguém nos tenha pedido isso.

E quando reflito sobre isso, penso na questão do desapego.

Sim, é algo que eu preciso trabalhar e lapidar dentro de mim mesma... E nem falo de objetos, nem livros, nada disso. Preciso aprender a me desapegar das pessoas. Não todas... Nem todas, mas algumas sim. E como isso é difícil.

desapego
de.sa.pe.go(ê) sm (des+apego)
1 Desafeição, desamor, indiferença.
2 Desinteresse.
3 Desprendimento.

O sentido necessário é o do desprendimento. Que caminha lado a lado com o respeito pelas opções de cada um.

Apesar de eu já ter dito que, se dependesse de mim, pegaria cada um dos seres amados pelas mãos e os arrancaria da caverna escura; esta é a minha vontade e não a minha prática.

Transmito o que eu aprendo, mas não serei insistente, nem chata... Por respeito. Não serei omissa, para que depois não seja acusada de não ter compartilhar tudo aquilo que eu aprendi.

Não serei omissa por amor. Mas não vou procurar as pessoas, mesmo as que amo, com a intenção de doutriná-las e nem mesmo de fazer proselitismo (coisa que detesto). Sei que o limite entre transmitir as informações e ser 'aparentemente' insistente, é muito tênue.

Estamos vivendo tempos bem complicados, de transformações muito sérias para a Terra e seus filhos. São mudanças há muito necessárias. E eu, por mais que queira, não poderei carregar os seres amados em meus braços... O caminhar é individual, apesar de todos sermos um.



"Nós não nos damos conta de que podemos cortar qualquer coisa de nossas vidas, a qualquer momento, num piscar de olhos".
(Carlos Castañeda em Viagem a Ixtlan)

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