terça-feira, 18 de agosto de 2009

O papagaio de papel dourado e o vento prateado



















Esta história é de Ray Bradbury, e encontra-se em um livro chamado:
"Os Frutos Dourados do Sol".



O papagaio de papel dourado e o vento prateado


"Há muitas centenas de anos atrás, em uma bela e próspera cidade chamada Leshan, pode ouvir-se o grito do mandarim assustado ecoando entre as casas e riachos do lugar.

- Na forma de um porco?
- Na forma
de um porco - disse o mensageiro, e partiu.
- Oh, que dia mau
de um ano mau - lamentou-se o mandarim - A cidade de Kwan-Si, do outro lado da colina, era tão pequena na minha infância. Agora cresceu tanto que finalmente estão construindo seus muros.
Uma voz feminina
de grande delicadeza perguntou:
- Mas porque seus muros, a três quilômetros daqui, fariam meu pai ficar tão triste e irado
de um momento para outro?
- Eles estão construindo os muros - disse o mandarim - na forma
de um porco! Percebeste? Os muros de nossa cidade tem a forma de uma laranja. O porco faminto vai nos devorar!
- Ah...
E os dois sentaram pensativos.

A vida no oriente é cheia
de símbolos e presságios. Nos tempos antigos isto era ainda mais intenso... Demônios se escondiam nas sombras, a morte nadava na umidade de um olho, a curvatura na asa de um pássaro significava chuva, um leque em determinada posição poderia trazer o frio antes da hora certa, a inclinação de um telhado, a posição de um móvel e até mesmo as formas dos muros tinham importância.
Portanto, vigilantes e turistas, caravanas, músicos, artistas, chegando às duas cidades e julgando os indícios, diriam: 'A cidade em forma
de laranja? Não! Vou entrar na cidade em forma de porco e prosperar, comendo tudo e engordando com boa sorte e fartura!'

O mandarim quase chorou.
- Tudo está perdido! Estes símbolos e estes sinais são terríveis. Nossa cidade terá maus dias.
- Então - disse a filha - chamai vossos pedreiros e os construtures
detemplos. Vou me esconder atrás do biombo de seda e sussurar o que meu pai deve dizer.
O velho bateu palmas desesperado:
- Chamem os pedreiros! Construtores de cidades e de palácios!
Os homens solicitados vieram depressa. O mandarim recebeu-os com grande aflição, esperando ele mesmo o sussurro que veio do biombo atrás
de seu trono.
- Chamei-vos aqui - disse a voz sussurante...
- Chamei-vos aqui - disse o mandarim em voz alta - porque a nossa cidade tem os muros em forma
de laranja, e a cidade de Kwan-Si tomou nestes dias a forma de um porco esfomeado...
Neste ponto, os pedreiros e os construtores começaram a chorar e a gemer. A morte fazia soar seu cajado no pátio.
- E assim - prosseguiu o mandarim, seguindo o murmúrio suave - Vós deveis empunhar suas pás e empilhar as pedras, para mudar a forma
de nossa cidade!
Os arquitetos e os pedreiros ficaram atônitos e o próprio mandarim se surpreendeu quando prosseguiu:
- E vós dareis aos nossos muros a forma
de um grande bastão, para afugentar o porco!
Os homens chamados se ergueram saltando e gritando
de alegria. O mandarim batia palmas entusiasmado:
- Depressa homens! Ao trabalho!
Quando todos partiram sorridentes e muito atarefados, o mandarim voltou-se com grande amor para trás, para o biombo
de seda, cheio de gratidão.

A notícia se espalhou pela cidade; o mandarim foi aclamado. Todos queriam ajudar e levaram pedras para a construção do novo muro
de Leshan. Fogos de artifício foram acesos e os demônios da morte e da pobreza não se manifestarm, enquanto a cidade inteira trabalhava junta. Ao cabo de um mês, os muros estavam belos e imponentes. E tinham a forma de um terrível bastão, pronto para afugentar porcos, javalis e até mesmo tigres. O mandarim dormia todas as noites como uma raposa contente.
- Só queria ver o mandarim
de Kwan-Si quando ele souber da notícia! Será um pandemônio, uma histeria; é provável que ele se atire da mais alta montanha... Sirva-me um pouco de vinho, ó filha-que-pensa-como-um-filho.

O prazer e a alegria do mandarim, porém, foi como uma flor
de inverno: morreram logo.
Na tarde seguinte do dia em que os muros ficaram prontos, o mensageiro entrou na corte de Leshan trazendo uma terrível notícia.
- Ó mandarim! Doença, dor prematura, avalanchas, pragas
de gafanhotos e águas envenenadas!
O mandarim estremeceu.
- A cidade
de Kwan-Si - prosseguiu o mensageiro - que havia tomado a formade um porco, animal que afuntaríamos com nosso poderoso bastão, transfoma nosso triunfo em cinzas! Seus muros estão tomando a forma de uma grande fogueira, para queimar nosso bastão!
O coração do mandarim apertou-se no peito, como o fruto
de uma árvore velha no outono... E exclamou:
- Ó deuses! Os viajantes hão
de nos ignorar. Os comerciantes trocarão facilmente o bastão, tão fácil de destruir, pelo fogo que tudo vence!
- Não - disse o sussurro
de sua filha por detrás do biombo de seda.
- Não! - disse o mandarim esperançoso - dizei aos nossos pedreiros, que transformem os nossos muros novamente! Terá agora a forma
de um lago plácido e reluzente... - e enquanto falava, seu coração novamente se aquecia - e com este magnífico lago, vamos apagar o fogo da fogueira de Kwan-Si e rescaldá-lo para sempre!

A cidade rejubilou-se ao saber que tinham sido salvos novamente pelo magnífico imperador das idéias. Correram para os muros e o reconstruíram segundo a nova visão. Desta vez não foram tão rápidos, nem cantaram ou dançaram tanto quanto da primeira vez. A verdade é que os habitantes
de Leshan tinham precisado abandonar suas lavouras e seus negócios para ajudar na construção do muro. E como tinham trabalhado árduamente, estavam um pouco cansados e um pouco mais pobres.

Houve então uma sucessão
de dias terríveis e maravilhosos, uns saindo dos outros como uma sucessão de caixinhas de surpresa.

- Ó mandarim! - gritou o mensageiro - Kwan-Si está reconstruindo seus muros novamente, dando-lhe a forma
de uma boca gigantesca, para beber todo o nosso lago!
- Então, dai aos nossos muros a forma
de uma agulha para costurar esta boca!

- Ó mandarim! - berrou o mensageiro - Transformam seus muros em uma espada para quebrar nossa agulha!
- Então seremos a bainha para cobrir a espada!

- Tende piedade ó mandarim! Eles trabalharam toda a noite e deram aos seus muros a forma
de um raio para destruir nossa bainha!!!

A doença, o cansaço e a fome se espalharam pela cidade
de Leshan.


Lojas e oficinas fecharam. Toda a população trabalhava há meses sem parar, nas incessantes modificações dos muros da cidade. Os cortejos fúnebres começaram a percorrer as ruas em pleno verão, tempo em que deveriam estar colhendo e cuidando
de suas plantações. O próprio mandarim por fim adoeceu e passou a dar as ordens de seu quarto.

- Kwan-Si é uma águia!
- Seremos uma rede para capturá-la!
- Kwan-Si agora está se tornando o sol!!! Destruirá nossa rede, ressecando-a.
- Seremos a Lua para eclipsar o sol!

No último dia do verão, a filha disse para seu pai que aquela disputa tinha ido longe demais. E pediu para ele conversar diretamente com o mandarim
de Kwan-Si.

- Em nome
de todos os Deuses, chamai o mandarim de Kwan-Si!!!

Em pouco tempo eles estavam frente à frente. Ambos estavam adoecidos, magros e pálidos. E os dois estavam tão enfraquecidos que precisaram ser carregados em liteiras.
- Vamos acabar com isso... - disse uma voz suave e feminina.
E a filha do mandarim
de Leshan, bela e delicada como a porcelana, saiu detrás do biombo.
- Isso não pode continuar. Nossos povos só fazem reconstruir nossos muros dia após dia, hora após hora. Não tem mais tempo
de viver, amar, honrar os antepassados e cuidar das lavouras.
Os dois mandarins concordaram.
- Levai os dois até a luz do sol.
Os velhos foram carregados até o alto
de uma pequena colina, longe dos muros e das tristezas da cidade.

Lá, na brisa do final do verão, crianças muito magras, porém alegres, empinavam papagaios
de todas as cores: amarelos como sol, azuis da cor do mar, verdes como as árvores, vermelhos e da cor do trigo.
A filha sentou-se ao lado
de seu pai.
- Vede - ela disse.
- São papagaios
de papel - disseram os dois mandarins.
- Mas o que é um
papagaio de papel ao solo? - disse a moça - Não é nada. De quê ele precisa para sustentar-se no ar, tornar-se lindo e ganhar alma?
-
De vento, é claro!
- E
de que precisam os céus e os ventos, para ficarem lindos?
-
De um papagaio de papel, é claro - disseram os mandarins de Kwan-Si e de Leshan.
- Então - disse suavemente a moça - vós
de Kwan-Si mudareis vossos muros pela última vez. Deverão se assemelhar ao vento. Será um vento prateado... E nós daremos aos nossos muros a forma de um papagaio de papel dourado. Um sem o outro não é nada. Juntos, tudo será belo. Viveremos em harmonia, cooperação e teremos vidas longas e prósperas.


Ao ouvirem estas palavras, os mandarins rejubilaram-se tanto, que se alimentaram pela primeira vez em muitos dias. Abraçaram-se e trocaram homenagens e juramentos
de aliança e amizade.

Em pouco tempo, as cidades tornaram-se a Cidade do
Papagaio de Papel Dourado e a Cidade do Vento Prateado.

E as colheitas foram colhidas, os negócios voltaram a prosperar e a doença desapareceu. Os habitantes
de Leshan ouviam o som benéfico do Vento Prateado a sustentá-los no ar, enquanto os habitantes de Kwan-Si sentiam o Papagaio de Papel Dourado a lhes alegrar... E assim foi."

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