quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Encontro II


O ar frio te cerca
Minhas mãos tentam te salvar
Como em um sonho confuso
O tempo parece parar

O calor do meu corpo te aquece
Sinto teu murmúrio silencioso na pele
Fixo o olhar nas tuas turquesas
De inquestionável e rara beleza

Quis libertá-la dali, salvá-la
Do vagão gelado e feroz
Mas voaste para longe
Naquele instante breve e atroz

Fiquei sem voz, sem pranto
Sem perceber, entretanto
Que todos somos libélulas
No vagão gelado e estranho


(Flavia Alves, Janeiro de 2017)





Encontro


Ela estava dentro de um dos vagões gelados do metrô. Minha amiga a avistou ao se levantar para descer:

- Tadica... - acompanhei o olhar e concordei com a compaixão, sentindo piedade eu mesma. A libélula teria poucas chances de sair dali.

Me despedi da Ju e fiquei quieta no vagão cada vez mais cheio. O problema é que o meu olhar já estava capturado. Observava o ar frio e inclemente castigando as asinhas delicadas e, como ela não se movia, pensei que estaria morta.

Mas ela se mexeu. Na mesma hora eu levantei e fui até a libélula, ofereci a minha mão com a maior calma e esperei. Devagar ela subiu nos meus dedos e ali ficou.

Pensei em libertá-la em Copacabana, perto do Parque da Chacrinha. Fiquei imóvel como ela, para não a assustar, e começamos a falar, de alma para alma:

- Não tema... Vou levar você para um lugar lindo... Confia em mim.

Fomos papeando da Carioca até Botafogo. Ela respondia vibrando devagar, como se o mundo fosse uma filmagem em câmera lenta.

Quase chegando na Arco Verde ela passou a vibrar mais forte.

Voou. Não consegui impedir e ela se perdeu entre os humanos naquele trem subterrâneo.






segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sobre silêncios

Silêncio da voz.
Silêncio na ação.
Silêncio na alma.
Anulação.

Silêncio na escolha.
Silêncio da jornada.
Silêncio como tortura.
Alma calada.

Não repita!
Não tente!
Não dialogue!
Silencie a mente!

Não fale, engula.
Não cante, engasgue.
Não grite, obstrua.
Silencie!

Se rasgue!!


(Flavia Alves)




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Arte: jeremi12, deviantART




terça-feira, 12 de julho de 2016

Cordas de violão

Eu estava sentada sob o sol morno perto de meu mestre. Um vento suave balançava sua túnica clara e seus cabelos e barba brancos.

- Veja - dizia ele com suavidade, mostrando-me o violão - duas das cordas estão arrebentadas. E essas outras estão desgastadas. Você percebe?

O violão parecia machucado. Apesar da madeira, da estrutura, estar intacta, ele estava arranhado e opaco. Um das tarrachas de madrepérola estava faltando. Um arranhão mais profundo mostrava que ele estava maltratado. Segurei o precioso violão e senti grande tristeza.

- Você compreende que não depende apenas de você consertar o violão? Esse não é o seu ofício... Você só poderá voltar a tocá-lo quando o artesão lhe trouxer cordas novas e uma tarracha.

Eu não podia fazer nada além de esperar. Olhei para os olhos de meu mestre, que estava sorrindo, e prosseguiu com a lição.

- O aspecto do violão em si, não impede de serem tocadas lindas melodias, mas sem as cordas e sem a afinação, será impossível - ele fez uma pausa, e tirou o violão de minhas mãos - o que você pode fazer, além de esperar?

Mirei o horizonte. O vento suavizava o sol de inverno e tornava o dia agradável.

- Posso cantar? - arrisquei, como arriscaria uma criança.


- Sim. Você deve! Assim, quando chegarem as partes que faltam do violão, sua voz estará límpida como a de um pássaro. Serene seu coração, cante com a sua alma e espere o tempo para as outras músicas.


(Flavia Alves)





sexta-feira, 1 de julho de 2016

Areia


São quase 21h... Escuto uma criança aos prantos na rua.

Vou para a janela. A mãe puxa um menino de cerca de 2 ou 3 anos pela mão. Aos prantos, ele implora pelo colo materno e a sua voz mistura manha e claro cansaço. Olho para a mãe, vejo que o pegou há pouco; carrega a mochila pesada da escola e a própria bolsa. Está cansada também.

Ela atravessa a rua, puxando-o. Ele, no meio das lágrimas, tenta convencê-la gritando: "- Mãe, por favor, quero colo... Por favor!!"

Suspiro triste. Eu entendo a mãe e entendo a criança.

Penso, inevitavelmente, no tempo como uma ampulheta de areia que corre depressa.

Se ela pudesse me escutar, eu lhe diria: - Em breve ele não caberá mais no seu colo... Mas, ainda cabe. Em breve ele não irá pedir pelos seus braços... Mas ainda pede, clama por eles. Pegue-o no colo, mãe. Pegue antes que os grãos não caiam mais.

Peço que o vento leve meu conselho silencioso e fecho as cortinas. Eu sei apenas sobre o que eu vivi, sinto e penso... E eu sempre vou querer o colo da minha mãe.

Verdade tardia.



(Flavia Alves)



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Pintura: www.przyklady-galerii.com