terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

A sala das redes


Entrei na sala das redes vermelhas, amarelas e laranjas. As janelas eram amplas e entrava luz em abundância. As pessoas, seres amados, estavam serenas e conversavam entre si sorridentes.

Eu estava sentada em uma rede alaranjada, quase deitada. Estava sentindo paz em meu ser e ao longe percebi meu companheiro, Leandro, que estava em uma rede vermelha com uma criança pequena no colo. Tudo parecia bem até que o meu olhar foi para o chão.

Ali havia animais peçonhentos de todos os tipos: serpentes, aranhas, lacraias e muitos escorpiões de todos os tamanhos. Eram centenas! Engoli em seco, apavorada e notei que os animais pareciam aumentar de tamanho. Meu medo aumentou, pois havia muitas crianças e bebês naquela sala e senti raiva daqueles bichos, quis matá-los.

- Flavia – chamou uma voz em tom calmo. Virei para olhar e era meu irmão mais velho, o Igor – respire, irmã. Acalme-se.

Ele segurava um escorpião imenso, do tamanho de um gato adulto, completamente negro.

- Não há razão para você se sentir assim, amada. Olhe bem para eles. Perceba-os. Você consegue ver o que eles são? – prosseguiu meu irmão em um tom suave.

Eu respirava com dificuldade, mas comecei a inspirar e expirar mais profundamente, focando a minha atenção no que o meu irmão dizia. Ele tornou-se um alicerce.

- Esses animais representam todas as dores e medos, de todos os caminhos que trilhamos e vidas que vivemos... Veja – ele acariciava o imenso escorpião negro, que pareceu menor por alguns instantes – o veneno desses seres pode entrar em nossos espíritos se nós permitirmos isso. Compreende? Você não pode destruir ou matar tudo aquilo que viveu. Somos tudo aquilo que vivemos, irmã. Perceba e não permita que o veneno do medo lhe paralise – e colocou o escorpião no chão... E aquele aracnídeo pareceu pequeno e afastou-se do grupo.

O meu noivo havia se levantado de onde estava e veio até onde eu estava. Ele entregou sorridente a criança que segurava para o meu irmão, que sorrindo colocou-a em meus braços, dizendo:

- Chegou a hora, irmã! – a criança, que tinha cerca de um ano de idade, estava vestida com uma fantasia de macaco, como essas do ano novo chinês – Chegou a hora!

Pisquei. Tudo mudou.

Meu irmão me conduzia pela mão por um corredor repleto de portas. Todas pareciam levar a lugares muito diferentes da sala onde estávamos antes.

- Vou entregar a sua mão em seu casamento, amada. Você precisa escolher a flor.

Entramos em uma sala estranha. Era escura e havia as luzes de muitas velas brancas. Atrás de um caixão vi centenas de vasos de flores amarelas das mais diversas... E espetados nos vasos e na terra das flores, vi instrumentos estranhamente desnecessários.

Aproximei-me decidida e comecei a retirar das terras dos vasos todos os instrumentos que não eram naturais: canetas, tesouras, réguas, compassos, colheres e muitos objetos cortantes, como facas e estiletes. Os jogava no chão... O caixão escuro não estava mais na sala.

Perto de mim senti a presença de meu irmão e notei sua vestimenta alaranjada. Parecia uma túnica indiana.

- Por que você está fazendo isso? – perguntou-me olhando em meus olhos fixamente – Você está certa, mas precisa me dizer o motivo.

- Esses instrumentos não são naturais... São uma tentativa humana de controle – respondi retirando de um vaso, um relógio. Mostrando para ele, disse-lhe – não temos controle de nada. Nós jamais tivemos o controle sobre a vida.

Meu irmão sorriu e perguntou-me se eu tinha escolhido a flor para o meu casamento. Olhei para todas elas e escolhi uma flor do campo amarela, singela. Pedi para a planta, em silêncio, licença para pegar a flor e cortei seu caule, estendendo-a para o Igor, que a colocou nos meus cabelos.

- Você está pronta – e beijou a minha testa.

Uma aura de luz parecia circular nossos corpos e meu irmão foi se tornando um só com a luz.


Acordei.







domingo, 7 de fevereiro de 2016

Hibernação

As palavras estão ausentes
Elas adormeceram em minh'alma
Sigo caminhando, prossigo
Ergo os olhos para os céus, confio

Elas irão despertar (eu sei)
Ó ansiado alvorecer do poetizar!
Irá acontecer
Basta eu acreditar!


(Flavia Alves)













Caminhar

Foco no aqui e no agora, prossigo meu caminhar
Os sonhos confundem memórias e escolhas de outrora
Com o viver, e tudo o que é necessário plantar e fazer

A compreensão do momento presente, no possível
A aceitação de estar aqui, nesse planeta, para a lapidação do ser

O reconhecimento dos laços da humanidade
...de sermos UM, dos elos

O afastar do medo, a sublimação da saudade
A percepção de tudo (tudo) ser belo... 

Viver a verdade


(Flavia Alves)










Segundo ciclo solar


Meses que frutificaram em ano...
Eis que o plural do ciclo solar se aproxima
Busco então, uma nova rima
Para celebrarmos o nosso enlace

Prossegue como escolha e cultivar
A amizade, o zelo e o calor
Ser

Prossegue o nosso (juntos) caminhar
Ao semearmos deliberadamente o amor
Viver



(Flavia Alves)













quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Além das palavras

A tarefa de literatura era ir além das palavras e do papel. 
A ideia era e é uma intervenção literária. 
Algo público, postado e compartilhado nas redes sociais.


Pensei durante muitos dias sobre o que eu poderia fazer.
Queria algo que fosse pessoal e visível.
Que carregasse poesias, palavras, cor e arte.
Queria que levasse uma parte de mim... E uma parte de meu avô.


Meu avô poeta, que (ainda) não teve livros publicados.
Meu avô que tanto amo...
De quem tenho tanto orgulho.

Lembrei que há alguns anos atrás pintei uma blusa para mim sobre veganismo e usei a técnica da esponja. O resultado foi bom, com um azul flutuante e as palavras que eu escrevi em destaque. A tenho até hoje, mesmo passado tanto tempo...


Escolhi verde. 
Peguei trechos de poesias.
Usei palavras que simbolizam a disciplina e o ideal por trás desta tarefa.

Escrevi, pintei, me emocionei.

Criei e recriei.


E nas duas blusas escrevi trechos de poesias do meu avô, Luiz Gonzaga Alves... Ali, entre Neruda, Cecília, Pessoa, Teatro Mágico. Eternizado no amor, no compartilhar... Na ação e na arte.

Te amo para sempre avôzinho.

Grata por tudo.


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#arte
#amomeuavo
#literatura